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Poeta popular, mais conhecido por Canção, nasceu em São José do Egito, a 12/05/1912. Em 1950, deixou de participar de cantorias de viola e dedicou-se apenas à poesia escrita. Sua obra já foi classificada pelos críticos como uma versão popular à poesia de poetas românticos como Castro Alves, Fagundes Varela ou Casimiro de Abreu.
Freqüentou a escola por pouco tempo ("não cheguei ao segundo livro") e foi, também, oficial de Justiça em sua cidade, onde morreu a 05/07/1982. Livros publicados: "Meu Lugarejo”, Gráfico Editora Nunes Ltda, Recife, 1978; "Musa Sertaneja" e "Flores do Pajeú". Folhetos de Cordel de sua autoria: "Fenômeno da Noite", "Mundo das Trevas", "Só Deus é Quem Tem Poder". Cancão deixou Três Livros publicados: MEU LUGAREJO - 1978 / MUSA SERTANEJA / FLORES DO PAJEÚ Folhetos de Cordel de sua autoria: "Fenômeno da Noite", "Mundo das Trevas", "Só Deus é Quem Tem Poder". MEU LUGAREJO I Meu recanto pequenino De planalto e de baixio Onde eu brincava em menino Pelos barrancos do rio Gigantescos braunais Meus soberbos taquarais Cheios de viço e vigor Belas roseiras nevadas Diariamente abanadas Das asas do beija-flor. | II A terra da catingueira Criada na penedia Onde a ave prazenteira Canta a chegada do dia Planalto, ribeiro, prado Onde até o próprio gado Parece ter mais prazer Terreno das andorinhas Onde arrulham mil rolinhas Quando começa a chover. | III A borboleta ligeira Que desce do verde monte Passa voando maneira Roçando as águas da fonte As aragens dos campestres Pelas florzinhas silvestres Atravessam sem alarde Quando o sol se debruça A Natureza soluça Nas sombras do véu da tarde. | IV Terreno em que os sabiás Cantam com mais queixumes Belas noites de cristais Cravadas de vaga-lumes Meus mangueirais magníficos Por onde os ventos pacíficos Atravessam mansamente Verdes matas perfumadas Nas lindas tardes toldadas Das cinzas do sol poente. | V Esvoaçam, preguiçosas As abelhas pequeninas Tirando néctar das rosas Das regiões campesinas Os colibris multicores Pelos serenos verdores Perpassam com sutileza O orvalho cristalino Lembra o pranto divino Dos olhos da Natureza. | VI Palmeiras que o rouxinol Canta ainda horas inteiras As auras do pôr-do-sol Soluçam nas laranjeiras A pelúcia aveludada De muitas flores bordada Desde o vale até o outeiro Lugar em que cada planta Soluça, sorri e canta Pelos trovões de janeiro. | VII Deslumbra a gente o encanto Das borboletas douradas Pousarem no róscio santo Das manhãs cristalizadas Fingem variadas fitas De fato que são bonitas Porém se fingem mais belas Que a divina Natureza Por ter-lhes posto a beleza Deu mais vaidade a elas. | VIII Oh, noite de lua cheia De minha terra querida Lindas baixadas de areia Princípios da minha vida Lugares de despenhado Onde gozei, descansado Sombra, frescura e carinho Bosque, vale, serrania Lugares onde eu vivia Em busca de passarinho. | IX Os colibris delicados Pelas manhãs de neblina Passam voando vexados Na vastidão da campina Nos frondosos jiquiris Dezenas de bem-te-vis Elevam seus madrigais Lugar que grita o carão Olhando o santo clarão Primeiro que o dia traz. | X As pequeninas ovelhas Descem buscando o aprisco Colhendo ainda as centelhas Do sol ocultando o disco Seguem pelas mesmas trilhas Como que sejam as filhas Dum pastor que lhes quer bem Recebendo ainda as cores Dos derradeiros rubores Que o céu do oeste tem. | XI Vivia sempre brincando Fosse de noite ou de dia Na alma se apresentando Um mundo de poesia Minhas queridas delícias Aquelas santas primícias Se passaram como um hino Hoje só resta a lembrança Do tempo em que fui criança No meu torrão pequenino. | |
DOIS COQUEIROS I Testemunhas seculares Do outro lado do rio Rumor das brisas lunares Nas calmas noites de estio Foram vigias de feras Venceram eras e eras Se tornaram centenários Os seus bulícios tristonhos Tinham a doçura dos sonhos De mil poemas lendários. | II Com prazeres recebiam O pequeno rouxinol Eram os primeiro que viam A face alegre do sol Sentiram as mesmas mágoas Beberam das mesmas águas Queimados do mesmo pó Colheram o mesmo sereno Viveram num só terreno Nasceram num dia só. | III Com todo viço aumentaram As duas plantas vizinhas Em pouco tempo chegaram Ao mundo das andorinhas Neve, chuva e cerração Frio, sereno e verão Nada disso o atingiram Vencedores das idades Nem as próprias tempestades Tempo algum lhes aluíram. | IV Nas brisas que perpassavam Brandas ou mais violentas Eles os dois conversavam Numas frases barulhentas Receberam temporais Deslocamentos fatais Por brusco arrojo dos ventos Viveram nestes combates Lutando contra os embates Da força dos elementos. | V Assim aqueles coqueiros Cheios de viço e enganos Se tornaram dois guerreiros Foram lutar contra os anos Um ao outro em homenagem Nos bafejos da aragem Estendiam a palha sua Cada fronde, verde e bela Conservava uma parcela Da luz serena da lua. | VI Suas palhas sussurrantes Continham graça e beleza Dois monstruosos gigantes Criados da Natureza Desde a fronde às raízes Todas suas cicatrizes Foram profundas feridas Cada marca, uma história Uma medalha, uma glória De cem batalhas vencidas. | VII Em certos dias marcados Choveu torrencialmente Foram os dois abraçados Por poderosa corrente Um rodava, outro pendia A água se remexia Numa fúria de dragão O mais fraco, já vencido Num arrojo desmedido Caiu sem ter salvação. | VIII Ficou o outro coqueiro Em meio à corrente, em pé Como se fosse um guerreiro Sem esperança e sem fé Se balançava, tremia Tombava, depois se erguia Entre o furor do perigo E a morrer se dispunha Como a maior testemunha Da morte de seu amigo. | IX No horroroso fragor Já se mostrava pendido Sentiu faltar-lhe vigor Foi ficando esmorecido A água em borbotão Fazia revolução Da superfície à areia Caiu no mesmo momento Ao impulso violento Dos solavancos da cheia. | X As grandes vagas caudais Desciam ligeiramente Sem ter resistência mais Se lançou sobre a corrente O aguaceiro o levou E junto ao outro deixou Por um ligeiro desvio Ficando os dois encostados Onde estão sepultados Do outro lado do rio. |
O ÉBRIO Há um ébrio aqui parede e meia Que o infortúnio lhe fez um sorteado Descalço, sem pão, esfarrapado Sendo o mais conhecido na cadeia. Chora, canta, soluça, palavreia Pela voragem do vício deformado Ninguém sente nem olha o desgraçado Que por sorte desdita cambaleia. Vive fora de toda humanidade Caídos às vezes nos bancos da cidade Exposto à chuva, a frieza e ao mormaço Enquanto tomba e tropeça sem alento Este povo, de menos sentimento Zomba e ri o tomando por palhaço. | Extraido do Site: Poeta Pajeuzeiro |