Antônio Piancó Sobrinho, conhecido como Toinho Piancó, nasceu no Sítio Maniçobas, Município de itapetim / PE, em 27 de dezembro de 1921,filho de João Inácio de Lima e Dª Conceição Piancó.
Herdou de seu pai o dom da poesia. Aos 13 anos de idade perdeu seu pai, o que lhe deu - como filho mais velho - grandes responsabilidades para com a casa, tornando-se o braço direito de sua mãe Dª Conceição, assumindo a condução dos negócios da família e ajudando a mãe na criação dos seus seis irmãos.
Tal espírito de responsabilidade fez de Antônio Piancó um grande empreendedor, sendo mais tarde industrial, comerciante e político influente no Município, galgando inclusive ainda muito novo, os cargos de Vereador e depois Prefeito de Itapetim.
No mundo da política fez aliança e amizade com muita gente importante, dentro e fora do município, como Marco Maciel, Honório Rocha e, principalmente, com o Pe. João Leite e Walfredo Siqueira, dos quais gozou de grande confiança.
Antônio Piancó casou-se com Rita Barbosa Piancó, com a qual teve sete filhos: Bernadete, Lusinete, Elizabete, Lionete, João, Fátima e Rita de Cássia. Faleceu em 05 de Janeiro de 1991, na cidade de Recife, mas foi enterrado na Cidade de Itapetim – PE.
Como vimos, Antônio Piancó não era cantador de profissão, mas industrial, comerciante e político mas, como guardava consigo grande vocação poética que herdou do se pai, João Inácio de Lima, vez por outra fazia versos, seja por inspiração própria ou a partir de temas ou motes dados pelos amigos.
Fátima Piancó, sua filha, em seu livro ”Raízes: em prosa e verso” (2000), traz-nos uma grande quantidade de versos e poemas de seu pai, dos quais mostraremos, apenas, três trabalhos.
Uma primeira série de versos que escolhemos são aqueles que fez referentes á casa dos seus avós, no Sítio Maniçobas:
I Quando por acaso venho No antigo casarão Observo o seu estado Vejo a sua solidão Vejo com toda certeza Que a própria natureza Tá destruindo a beleza Da antiga construção
II Um casarão de arrasto Virando para o nascente Duas janelas, uma porta Tinha o casarão de frente Um quintal com dois oitões QFeitos de tijolos bons Do jeito das construções Que se via antigamente
III A calçada saliente Feita com boa subida Degraus com trinta centímetros Todos de uma só medida Quem no terreiro pssava Com certeza observava Que o dono velho gozava Alguma coisa na vida
IV Novena do mês de maio Era um ato obrigatório Em maio de cada ano Abria-se o oratório Pois o velho acreditava Quem neste mundo rezava Lá no outro se livrava Das chamas do purgatório
V Cercado com muita palma Mangas com muito capim Várzea com muita verdura Só parecia um jardim Bonitos canaviais Mangueiras e laranjais Se hoje assim não está mais Foi o tempo quem deu fim
VI Engenho de rapadura Casa de fazer farinha Bolandeira de algodão STudo na fazenda tinha Depois que o velho morreu Tudo desapareceu Ficou vindo aqui só eu Voando como andorinha
VII Dizer quem foi a fazenda Hoje ninguém acredita Vaca holandesa lavrada Igual a colcha de chita Muitos chocalhos tocando Vacas, bezerros berrando Boi manso se espreguiçando Meu Deus, que coisa bonita!
VIII Açude com muita água Grande espalho de represa O sangrador despachando As águas com ligeireza Quem ficasse observando Via piabas pulando Curimatá desovando Nas águas da correnteza
Segundo Fátima Piancó, o velho a que Antônio Piancó tanto se refere nos versos era Serafim Piancó, seu avô que teve sua chegada ás “Terras das Umburanas”, hoje Itapetim / PE, aos nove anos de idade, em 1877, fixando residência no Sítio Maniçobas, do qual fala os versos.
Mas Antônio Piancó era, também, um poeta de improviso, capaz de versar sobre um tema ou mote dado de supetão, como, por exemplo, esses feitos a partir do mote: ”Só partindo é que se sabe/como era bom ter ficado”. Em que fala dos filhos da terra que partem rumo ao Sul em busca de sobrevivência:
I Parte gente todo dia Para as capitais do sul Pensando num mundo azul Repleto de fantasia Porém a sua alegria Termina mal tem chegado Só o serviço pesado No mundo inteiro lhe cabe Só partindo é que se sabe Como era bom ter ficado
II Passam os dias ressentido Lamentando o seu pesar Pensando um dia voltar Para o seu torrão querido Com o coração partido E o peito dilacerado Chorando, desesperado Pede a Deus que a dor se acabe Só partindo é que se sabe Como era bom ter ficado
Por fim, demonstraremos outra característica de Antônio Piancó: era um sujeito humorista, sempre disposto a brincar com as pessoas e nas rodas de repentistas era comum ele sugerir motes ou temas engraçados, ou patrocinar cantorias entre os poetas beberrões, por isso escolhemos estes que ele mesmo fez:
I Velho contando o que fez Você fica admirado Se foi chofer correu muito Se vaqueiro pegou gado Dançador dançou demais Caçador pegou veado
II O passado de um velho Se for contado por ele Você fica boquiaberto Fica até com pena dele Pensa até que um Sansão Andava escanchado nele
III O velho por excelência Já vive desconfiado Nunca fala e quando fala Só se refere ao passado Contanto algumas vantagens Que com ele se foi dado
IV Dizia Antônio Marinho Nos tempos idos atrás Que todo velho acha bom Contar coisa de rapaz E dizer que já fez coisas Que o diabo nunca faz
V Todo velho acha bom Relembrar a mocidade Nunca conta uma moleza Só conta com vaidade Velho dizendo o que fez É uma barbaridade
Marcos Roberto Nunes Costa (
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Saulo Estevão da Silva Passos (
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Na hora do enterro de Antônio Piancó, um dos seus maiores amigos, Honório de Queiroz Rocha (hoje falecido), que na época estava como Presidente do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, proferiu o seguinte discurso:
Ouça a música Naquela Mesa, na voz de Nelson Gonçalves:
"Meus Amigos:
Eu devo neste momento a Itapetim, uma palavra e um testemunho. Uma palavra de solidariedade à família de Antônio Piancó Sobrinho. Uma palavra de solidariedade ao povo de Itapetim, terra que vivia no coração deste homem simples, mas um homem de uma grandeza de alma incomensurável.
Eu sinto, meus amigos, que Itapetim hoje é uma só voz para dizer bem de Antônio Piancó .
Itapetim hoje é uma só alma, magoada com sua partida. Itapetim é um coração conservando o mesmo sentimento de tristeza que se abateu sobre sua esposa, D. Rita, sobre seus filhos, sobre seus irmãos, sobre seus genros, sobre seus netos e sobre seus amigos.
Mas eu dizia que nesse momento era devedor de uma palavra a Itapetim e também de um testemunho.
O testemunho que eu tive a oportunidade de construir durante mais de quinze anos em que conheci Antônio Piancó e desde mil novecentos e setenta e cinco, nós nos ligamos através de uma amizade que foi se consolidando dia-à-dia e eu devotava a ele uma admiração profunda.
Admiração pelo homem correto, admiração pelo pai extremoso, admiração pelo avô que acariciava, com tanta alegria e com tanto sentimento, a cabeça dos seus netinhos.
E ontem, meus amigos, quando cheguei à Itepetim, vi um quadro verdadeiramente emocionante: aquelas crianças, aqueles netos, dos menores aos maiores em derredor do caixão, passando a mão nas mãos e na cabeça de um corpo inerte, na cabeça e nas mãos do seu avô, que havia partido.
Mas, nele, em Antônio Piancó, não se extinguiu o sopro de Deus.
A sua alma voou, o seu corpo aqui está, vai ser sepultado, mas a nossa crença nos afirma que ele hoje vive o momento de recompensa junto a Deus.
A recompensa da fé que teve, da esperança que o alimentou e do amor que dedicava à sua família e a lealdade aos seus amigos, o amor telúrico à sua terra, que ele desejava ser grande, progressista, desenvolvida.
Eu tenho certeza, meus amigos, que nesta hora a voz não é apenas de Itapetim. A voz é de todo lugar que Antônio Piancó deixou amigos. A voz é da Região do Pajeú, sentindo a sua falta, lamentando a sua ausência.
Mas nós vivemos de fé. Nós saímos agora da Igreja, onde foi celebrada a missa em sufrágio da sua alma.
A Igreja de São Pedro, que ele venerava; a Igreja que estava diante dos seus olhos na paisagem da manhã, da tarde e da noite, porquanto morava bem perto dela; a Igreja do Pe. João Leite, de quem tanto falava e que tanta influência exerceu em sua vida; a Igreja da fé; a Igreja , que era para ele um dos sinais maiores desta Itapetim, que ele tanto amou.
Meus amigos, estamos diante de um corpo inerte, de um corpo sem vida, mas de um corpo que foi instrumento de uma alma nobre, de uma alma desprendida, de uma alma que soube dizer a todos uma palavra de animação, uma palavra que era sempre a palavra amiga, a palavra que não tinha interesses maiores, senão o interesse maior de ajudar.
Privei da amizade de Antônio Piancó Sobrinho.
Conheci muito de perto a sua personalidade marcante. O homem criterioso, o homem de retidão de espírito, o homem reto, o homem grande, embora de estatura menor, de corpo franzino, mas um homem grande, de um coração bem maior ainda.
E nesta hora de pranto, nesta hora de dor, nesta hora da minha palavra, neste instante, nesta hora do meu testemunho, eu só tinha uma coisa a dizer a mais: era que a família de Antônio Piancó Sobrinho, saiba se unir em torno da mensagem de vida e do exemplo que ele deixou.
Saiba se unir em torno de D. Rita, para que a memória, os feitos e a vida de Antônio Piancó tenham continuidade nos seus filhos, nos seus genros e na sua nora.
Tenham continuidade nos seus netos, nestes que são sementes e que haverão de crescer.
Meus amigos de Itapetim, nesta hora de pranto, nesta hora de dor, elevemos nosso pensamento para o alto, para o céu e para Deus, neste dia que é o dia da Epifania do Senhor, o dia da manifestação de Jesus Cristo e Ele fez para a casa do Pai, aquele caminho da volta, o caminho da fé que nos conforta e que nos diz:
Vamos caminhar, vamos continuar a obra de Antônio Piancó Sobrinho, querendo bem a essa terra que ele tanto amou, como já disse, querendo o trabalho a que ele foi tão dedicado, querendo o progresso, querendo o desenvolvimento, querendo sobretudo o aconchego da sua família.
Quantas e quantas vezes, visitando-o no hospital, no leito, digamos assim, da dor e do sofrimento, eu o ouvi dizer: “Ah! Dr. Honório, eu queria meus filhos todos reunidos!”
Era este o seu sentimento. Sentimento de amizade, do aconchego, do carinho em torno dos seus filhos, daqueles que eram um pedaço da sua vida e um pedaço da sua alma.
Um homem leal aos seus amigos. Um homem que não tinha ódios. Um homem que não guardava ressentimentos. Um homem de alma aberta. Um homem de coração generoso.
Esse homem que não precisa que eu diga à Itapetim, toda Itapetim e toda Região do Pajeú, conhece e guardará a memória, a memória viva, a memória que não morre, a memória sempre presente de Antônio Piancó Sobrinho.
Que Deus o receba e que a graça do Senhor conforte todos nós.
Meus amigos, muita paz, muita serenidade, muita solidariedade, muita fé, muita esperança.
E que ele peça a Deus, nesta hora de dor e luto para todos nós, que Deus nos abençoe.
E a Mãe Santíssima, a Mãe Santíssima de todos nós, receba Antônio Piancó e o apresente de junto do grande Altar de Deus, o Senhor de todas as vidas."
Itapetim/PE, 06 de janeiro de 1991
Honório de Queiroz Rocha
Extraído do Blog de Lusa Piancó Villar (filha) - Vêr Blog