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Carro de Boi no Nordeste PDF Imprimir E-mail

O rústico e utilitário carro de boi


No nordeste brasileiro e, mais especificamente no sertão - na Região do Pajeú - personagens com seus trabalhos lembram a importância do carro de boi.

De tão presente e, ao mesmo tempo, de tanto saudosismo que carrega, o carro de boi nordestino é cultura viva a transportar as mais diversas mercadorias, como frutas, verduras, material de construção, lenha e até mudanças pelos campos e pelas ruas das cidades. Assim também é na pequena Brejinho, cidade pernambucana localizada a 420 km da capital Recife.


A estrada que o carro de boi percorreu do Recife até Brejinho foi, portanto, bastante comprida. Na verdade, não só a estrada de barro, mas também a estrada do tempo. Estrada situada entre o século XVI (quando foi utilizado para transportar cana e pessoas nos engenhos recifenses) até o século XX (quando foi utilizado pela primeira vez em terras brejinhenses nas mais diversas funções).

Carro de boi no Sítio Degredo, município de Brejinho.

A importância do carro de boi na vida dos brejinhenses está explícita nas histórias de quem conhece o ofício de lidar diariamente com o veículo popular.

Bastam poucos minutos de caminhada pelas ruas de Brejinho para se ouvir o “cantador” do carro de boi de José Ornildo Alves de Brito, o Guri. Há 16 anos ele transporta tijolos, areia e água no mesmo carro de boi.

Guri conta que preferiu a companhia dos bois “Canário” e “Craúna” do que a companhia do encarregado de obras, nas construções intermináveis de São Paulo. Ele disse que nunca teve vontade de viajar para trabalhar, mas sim se ser independente no seu próprio lugar. Assim, depois de ter trabalhado algum tempo numa padaria, resolveu comprar dois bois (uma “junta de bois”) e mandar fazer um carro. Guri tinha acabado de se casar.

O agricultor demonstra ter amor pelo que faz. “Eu adoro ser lembrado como o ‘rapaz do carro de boi’ aqui na cidade”, diz ele. “Só vendo meu carro se já tiver um outro, mais novo, para continuar o meu serviço”, completa, demonstrando convicção.

Não só pelo preço material, mas também pelo cultural e até emocional é que o carro de boi perdura até hoje nos campos e nas ruas de Brejinho e de grande parte do nordeste brasileiro. Feito de material rústico, como o Angelim, o pau d’Arc e a baraúna, ele ajudou e ajuda o sertanejo a conseguir o seu pão no seu rústico estilo de vida.

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Valmir, o jovem artífice


Valmir Gonçalves Cordeiro, 21 anos, é também conhecido no Sítio Degredo como Jorge. Há 11 anos, ele aprendeu com o pai, o agricultor Valdir Cordeiro Marques, 46 anos, o ofício de construir e reformar carros de boi. Até hoje ele se dedica ao trabalho e garante gostar do que faz.

“Dá lucro, é bom”, diz ele. “Faço muita reforma e chego a ganhar entre R$ 200, 00 e R$ 300, 00 por cada uma”, afirma.

Valmir trabalha na companhia do seu irmão mais novo, José Henrique.

Segundo ele, o preço de um carro feito de madeira de jatobá (planta da região) custa em média R$ 1.500,00, sendo o material mais caro trabalhado pelo jovem artífice.

Jorge diz que a construção de um carro de boi, dependendo da demanda do serviço, pode durar até um mês. “O que dá mais trabalho para fazer é o eixo, principalmente se for ao estilo maranhão”, afirma ao se referir à peça que segura as duas rodas do veículo. “Mas é bom, pois chego a ganhar, mais ou menos R$ 1.200,00 por cada carro que construo”, diz ele.

Sua irmã, Valquíria Gonçalves Cordeiro, estudante de 22 anos, aprendeu com ele e com o pai o nome e a função de todas as peças do carro de boi. Ela explica o que é uma “chumaçeira”, um “cocão”, um “eixo maranhão”, um “eixo comum” e tantas outras partes do veículo popular.

Dentre os problemas enfrentados pelo jovem artífice estão os maus pagadores. “O ruim é que aqui no Degredo e também lá em Brejinho existem alguns velhacos. Por isso, há meses que não consigo ter o lucro esperado, pois além desses velhacos, tem a conta de luz e tem a conta da madeira para pagar”, explica.



O jovem trabalhador, no entanto, não pára de estudar e de fazer planos. Há dois meses ele iniciou um curso de informática na cidade vizinha de São José do Egito e pensa em se tornar um técnico em informática. “Quero trabalhar com instalação de torres receptoras de internet e também com a parte do hardware do computador”, diz ele. “Existe até algo parecido entre esse serviço e o serviço com os carros de boi”, concluiu, explicando que ambos exigem o manuseio de ferramentas específicas.

Reportagem: Felizardo Alves Monteiro Neto

eMail: fmonteiro_1898@yahoo.com.br




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